Infelizmente tem havido um equívoco, por parte do leigo e da mídia, nem sempre tão leiga, de que a mulher ao fazer os exames de mama, mais especificamente a mamografia, estaria fazendo prevenção do câncer de mama.

 

Explico! Prevenção da doença é evitar que ela ocorra.

 

E o que estamos fazendo quando enfatizamos que a mulher vá ao ginecologista periodicamente para o exame das mamas, principalmente a partir dos 30 anos, é tentar diagnosticar precocemente a ocorrência de tumores mamários, até daqueles microscópicos.

 

E fazemos isso porque acreditamos que a mortalidade pelo câncer de mama reduza expressivamente nas mulheres que têm diagnóstico precoce do tumor, desde de que tenham a possibilidade de serem tratadas. E possivelmente teremos melhores diagnósticos e melhores resultados de tratamento, conforme melhoram os exames de mamografia e de ultra-sonografia da mama.

 

E a prevenção do câncer de mama?

 

Prevenção é quando podemos evitar que um tumor apareça, antes de seu diagnóstico! No colo do útero, hoje a prevenção do câncer é rotina, corriqueira em qualquer consultório de ginecologia e será tema em outro boletim, quando discorreremos sobre o HPV. Mas mama... ainda consiste numa discussão filosófica e pouco realista.

 

A retirada das mamas com colocação de prótese de silicone é uma prática que já vem sendo preconizada em alguns centros para mulheres com alto-risco de desenvolver o tumor, entretanto sem garantia de 100%. E alguns medicamentos, com seus efeitos colaterais e indesejáveis, estão em fase avançada de estudo para a prevenção do câncer de mama, também em mulheres de alto-risco.

 

Mamografia

 

Mamografia é o exame de raio-X das mamas. Com os aparelhos (mamógrafos) mais modernos e os filmes de RX mais sensíveis, diminuiu muito a quantidade de irradiação necessária para o exame, tornando-o mais seguro e ao mesmo tempo mais preciso. Para aumentar o risco da mulher ter câncer de mama em função da irradiação do exame, ela precisaria fazer mais de 500 exames durante a vida. Esse é o principal exame para a detecção precoce dos tumores de mama. Nódulos pequenos demais para serem palpáveis, podem aparecer no RX.

 

É um procedimento doloroso?

 

Para uma boa qualidade do exame, é preciso comprimir as mamas, o que é, no mínimo, desconfortável. Para algumas mulheres pode ser bastante doloroso. Entretanto, este desconforto é recompensado pela possibilidade de se obter um diagnóstico precoce de tumor. Pacientes com mamas muito pequenas são particularmente penalizadas.

 

Com que periodicidade deve ser realizada? Quando devo começar?

 

A recomendação do Colégio Brasileiro de Radiologia é a de iniciar aos 40 anos, realizando-a anualmente a partir daí. Em pacientes de "risco", deve-se iniciar mais precocemente. Como sou exagerada, em geral oriento minhas pacientes para começar a fazer mamografia aos 35 anos. E, naquelas mulheres com antecedentes familiares de câncer de mama, a partir dos 30 anos ou antes, dependendo da idade em que familiares tiveram o tumor. Quando há dúvida na interpretação do exame, ela pode ser repetida com intervalo menor que um ano e diante da suspeita de nódulo, pode ser realizada em qualquer idade.

 

Qual o melhor momento para fazer a mamografia? Que cuidados devo tomar?

 

Quando a mulher ainda menstrua, deve ser feita entre o 4o e o 10o dia após o início da menstruação. Dessa forma, além de realizar o exame num momento em que as mamas são menos sensíveis, evita-se de receber a irradiação durante a gravidez (quando indicado, a grávida deve também fazer a mamografia, mas com avental de chumbo sobre o abdômen). Não se deve aplicar desodorante, cremes, perfume ou talco nas axilas e nas mamas, pois eles podem "sujar" o filme de RX. Os cremes e desodorantes podem conter partículas metálicas, que simulam microcalcificações no RX.

 

Qual a eficiência da mamografia?

 

A mamografia pode detectar nódulos, benignos ou malignos, antes mesmo de serem palpáveis ou aparecerem à palpação ou à ultra-sonografia. O câncer microscópico da mama já pode aparecer à mamografia. Entretanto, acho justo esclarecer que quando a mulher tem muitas glândulas mamárias, as chamadas mamas "displásicas", que é a moléstia fibrocística da mama, que são mamas normais e mais freqüentes em jovens, as mamas aparecem muito brancas no RX (são as mamas densas), o que dificulta o diagnóstico de microcalcificações específicas ou de nódulos, que também aparecem em branco ao RX.

 

Explicando melhor, temos a possibilidade de duas situações na mamografia: 1- fazer diagnóstico demais, ou seja, ver possibilidade de ter tumor quando a investigação ulterior mostra que a mama era normal e 2- deixar de "enxergar" a presença do tumor (entre 5 e 10%). Isso nos leva a acreditar que temos que estar sempre em busca de melhores métodos de investigação na detecção precoce do câncer de mama.

 

Mamografia Digital

 

Exame novo entre nós, está me deixando muito animada pela qualidade da imagem, principalmente naqueles casos de pacientes com mamas densas na mamografia convencional. Acho que representa o grande avanço em imagem da mama, mas é preciso ainda um tempo para que se adquira experiência na manipulação do aparelho, que diga-se de passagem, é estupidamente caro! Tenho a impressão de que o mamógrafo digital não se paga e me pergunto se não deveria ser subsidiado pelo governo, já que é um importante instrumento na investigação do câncer de mama. Mas essa é uma discussão filosófica para outro momento. Porém, um acontecimento de maior peso em imagem de mama, provavelmente seja a ressonância magnética, bem realizada como os outros métodos, que pode detectar extensão tumoral não imaginável ao método radiográfico (mamografia).

 

Ultra-sonografia

 

A ultra-sonografia é um exame mais simples que a mamografia, no sentido de que não tem irradiação de RX (pode ser feita sem receio na gravidez) e tampouco precisa "espremer" as mamas para a feitura do exame. Mas passar o transdutor de ultra-som sobre as mamas reiteradamente, como muitas vezes é necessário fazer, também pode fazer com que nos lembremos do exame por alguns dias, no sentido de que as mamas podem sim ficar um pouco doloridas.

 

Por outro lado, é mais complexo porque a mama não tem muitos pontos de referência, o que dificulta para quem faz o exame, localizar os pontos por onde já passou o transdutor, principalmente considerando que o exame tem que ser realizado no escuro. Isso faz do ultra-som de mamas um exame demorado, portanto exames de 5 minutos não são confiáveis.

 

Depois de tantos anos de formada, posso dizer que é um exame totalmente dispensável se for para ser realizado em aparelho ruim, por pessoal inexperiente e com pressa em sua execução.

 

Lembro-me de meus tempos de internato e residência médica em que se alardeava que o grande trunfo da ultra-sonografia era distinguir entre nódulos sólidos e císticos, já que esses últimos não têm qualquer importância. Hoje em dia, uma das grandes dificuldades que ainda enfrentamos é justamente essa, em que nódulos e cistos todavia se confundem! Ou seja, os aparelhos de ultra-som se sofisticaram muito, mas tornaram-se muito caros.

 

É difícil para os laboratórios estarem atualizando constantemente seus equipamentos. Muitos exigem que os médicos façam exames rápidos, para terem um grande número de exames realizados, e assim assegurar um maior retorno financeiro. E isso acaba realmente comprometendo a qualidade do exame.

 

Mas não desanimem! Acredito no método e a literatura médica está aí para confirmar a vantagem que temos de utilizar a ultra-sonografia como exame complementar na avaliação das mamas, principalmente naquelas mais densas, em que pode superar a mamografia na capacidade de diagnosticar tumores. Em pacientes jovenzinhas, em que a palpação sugere a presença de algum nódulo, também nos ajuda a conferir se existe ou não nódulo no local da palpação. E, diante de nódulos palpáveis, esses devem sempre ser assinalados para o médico ultra-sonografista, assim como para o que examina a mamografia, para aumentar a eficácia na interpretação dos exames.

 

Revisado pela Profa. Dra. Maria Helena Siqueira Mendonça. Membro Colégio Brasileiro de Radiologia, American College Radiology e American Association of Women in Radiology.

 

Luciana Nobile

Ginecologista