Imagine passar por um ano de tratamento de câncer de mama, incluindo cirurgia, remoção de gânglios linfáticos, quimioterapia e radioterapia. O seu corpo sente-se como se estivesse estado em guerra, sob bombardeamentos constantes. Terminada esta fase, está na hora de recomeçar a sua vida e iniciar uma dieta restrita e um programa de exercícios. Aí então, você descobre que está com Linfedema. Dos 2 milhões de sobreviventes do câncer de mama nos Estados Unidos, aproximadamente 200.000 a 400.000 têm linfedema, para o qual não existe cura.

 

Apesar do exercício ser um dos fatores mais importantes, tanto na redução do risco de câncer de mama, como nos tratamentos pós cirurgia, até 2005 a Rede Nacional de Linfedemas nos Estados Unidos aconselhava as mulheres em risco de linfedema a não praticarem exercícios ou atividades exaustivas, como, por exemplo, levantar pesos maiores do que 2,5 kg. Não é de admirar que as mulheres mastectomizadas, assim como a comunidade médica, sentiam-se confusas com a recomendação de evitar atividades mais cansativas – recomendação essa baseada mais no medo do que em pesquisa consistente.

 

Precauções na Prática de Exercícios para Pacientes em risco de Linfedema

  • Obter consentimento médico antes de iniciar a prática de exercícios.
  • Não medir a pressão arterial no braço afetado.
  • Evitar a prática de exercícios quando está muito calor. Exercitar-se em lugares arejados ou com ar condicionado, se possível.
  • Use protetor solar e repelente de insetos quando estiver praticando exercícios ao ar livre.
  • Usar uma manga ou luva de compressão se assim for recomendada pelo seu fisioterapeuta. (Não é necessário em caso de exercício aquático).
  • Em caso de sintomas tais como sensação de peso, dormência, vermelhidão, inflamação, lesões de pele, febre, dor ou coceira, contacte um médico imediatamente.
  • Evite a massagem tradicional na área afetada.
  • Mantenha-se bem hidratada. A hidratação é essencial para a função linfática.

O que é um Linfedema?

 

O linfedema é a retenção localizada de fluidos, provocada por um bloqueamento do sistema linfático. No caso de pacientes com câncer de mama, o linfedema causa inchaço nos tecidos moles do braço, mão, tronco e peito no lado da cirurgia. Mulheres que sofreram dissecação axilar e/ou radiação estão particularmente em risco.

 

Os sintomas incluem sensação de peso, dormência, fadiga e, algumas vezes, dor. As mulheres afetadas têm movimentos limitados dos braços e diminuição da força muscular, causando restrições nas suas atividades. O braço mais “duro” a medida que o linfedema piora.

 

O linfedema pode desenvolver-se meses ou anos após o tratamento de câncer e pode ser provocado por uma infecção, movimentos repetitivos, viagens de avião, picadas de insetos, massagens vigorosas ou obesidade. Obviamente que prevenir um linfedema ou detectá-lo precocemente é melhor do que tratá-lo em estado avançado.

 

O Sistema Linfático

 

Entender o sistema linfático é importante para se elaborar um plano apropriado de exercícios. O sistema linfático age como um sistema de drenagem, ajudando a manter o equilíbrio corporal de fluidos, enquanto filtra produtos nocivos e destrói bactérias e células cancerosas. É composto de linfonodos, ductos e vasos coletores que trabalham juntos para remover o excesso de fluidos dos tecidos do corpo. O ducto linfático direito coleta fluidos do braço, do peito e da cabeça do lado direito. O ducto torácico esquerdo coleta fluido das pernas, do braço, cabeça e peito do lado esquerdo.

 

Os gânglios linfáticos atuam como filtros, produzindo linfócitos que ajudam a destruir bactérias, células cancerosas e outros desperdícios. Existem aproximadamente 30 a 45 linfonodos na região da axila; se há suspeita de câncer nos gânglios, geralmente são removidos de 10 a 15 para evitar que se espalhe. Se os linfonodos remanescentes não conseguem compensar o trabalho daqueles que foram removidos, poderá então surgir o linfedema. A radiação pode causar ainda mais danos devido à cicatrização dos vasos linfáticos. Finalmente, a tendência natural de proteger o braço após a cirurgia causa encurtamento dos músculos peitoral maior e trapézio e distensão dos músculos que estabilizam o ombro. A subsequente perda da mobilidade pode prejudicar ainda mais a drenagem linfática normal do braço.

 

Exercícios que enfatizam a respiração profunda e flexibilidade,
tais como a Yoga e Pilates, são particularmente benéficos


 

O Papel do Exercício Físico

 

Como é que o exercício pode então fazer a diferença? Ao contrário do sistema circulatório, o sistema linfático não possui um bombeamento central; ele é estimulado pelas mudanças de pressão das contrações musculares ou da respiração profunda. A respiração profunda melhora o bombeamento no ducto torácico; as contrações musculares realizadas em uma sequência específica (geralmente a partir das extremidades em direção ao tronco) pode aumentar o retorno linfático. Além disso podem ser feitos exercícios para alongar os músculos peitoral maior e trapézio, e fortalecer os músculos do ombro. Exercícios que enfatizam a respiração profunda e flexibilidade, tais como a Yoga e o Pilates, podem ser particularmente benéficos.

 

          Aquecimento

 

Aquecimento adequado prepara o corpo para o exercício e abre os canais linfáticos. O aquecimento pode incluir:

  • Respiração profunda.
  • Rotações do pescoço.
  • Protração e retração dos ombros (levar os ombros para frente e para trás).
  • Rotação desenhando círculos com os ombros

          Exercício Cardiovascular

 

É recomendado 20 a 30 minutos de exercício aeróbico, como caminhada ou natação, de 3 a 5 vezes por semana.

 

          Treino de Força

 

O treino de força na área afetada tem sido um assunto controverso. Tente fazer os exercícios com calma e siga as instruções abaixo:

  • Sempre inicie com aquecimento antes de começar o treino de força no braço afectado.
  • Observe a resposta ao exercício. Fique atenta a qualquer inchaço na área, o qual poderá indicar que a carga ou o número de repetições está muito alto, ajustando então o programa de acordo com essa resposta. (um fisioterapeuta poderá lhe ensinar como medir a circunferência do braço, com a fita métrica).
  • Use uma luva de compressão (geralmente prescrita pelo fisioterapeuta ou terapeuta ocupacional).
  • Concentre-se nos músculos dos ombros e das costas, incluindo o deltóide, serrátil anterior, trapézio, rombóides e os músculos estabilizadores do ombro, chamados de manguito rotador, para otimizar o fortalecimento do ombro e promover vias alternativas de drenagem linfática.
  • Trabalhe a região abdominal para facilitar o retorno do fluxo linfático ao ducto torácico.
  • Para dar um descanso ao braço afetado, alterne os braços; alterne também exercícios para o tronco superior e inferior ou treine em circuito, incluindo tanto o treino cardiovascular como o treino de força.
  • Planeje um programa para 2 a 3 vezes na semana. Comece devagar e vá progredindo gradualmente (ex. 1 série com carga de 1 kg no primeiro dia; 2 ou 3 séries com 1kg nos segundo e terceiro dias). Ao aumentar a carga, reduza o número de séries.
  • Proceda da maneira usual para treinar o braço não afetado, tronco, abdominais e pernas, a não ser que a reconstrução da mama tenha sido feita utilizando o músculo reto do abdomem. Neste caso, consulte o seu médico antes de começar qualquer exercício abdominal.
  • Inclua exercícios de Pilates, os quais enfatizam a postura e respiração enquanto trabalham a região abdominal.

           Flexibilidade

 

Exercícios de alongamento para os ombros, região axilar, região do músculo peitoral e grande dorsal podem ajudar a alongar o tecido cicatricial e diminuir o endurecimento axilar e a compressão do desfiladeiro torácico, aumentando o fluxo linfático. Como o tecido cicatricial continua a se formar durante 1 a 2 anos, os alongamentos devem ser feitos várias vezes ao dia, pelo menos durante um ano após a cirurgia e, preferencialmente, deve tornar-se um hábito de vida.

 

Minimize os problemas enquanto Maximiza os Ganhos

 

O seu programa de exercícios deve ser baseado no seu historial médico, preferências e nível de atividade. A progressão no exercício deve ser feita devagar e com segurança, e sempre com o objetivo de recuperar a forma física, função e resistência.

 

Tipos de Exercício de Flexibilidade

 

Os alongamentos devem ser feitos devagar. Deve-se expirar durante a fase de esforço e manter a posição por 10 segundos, no início, aumentando gradualmente para 30 segundos após algumas repetições. Estes exercícios devem ser feitos de 5 a 10 vezes seguidas, várias vezes durante o dia.

 

          Elevação do Ombro

 

Equipamento: bola ou bastão pequeno e leve.

 

  • Deite-se de costas com os joelhos dobrados, pés e costas apoiadas firmemente no chão.
  • Segure a bola com ambas as mãos e inspire. Expire e lentamente erga a bola acima da cabeça, mantendo os cotovelos estendidos.
  • Mantenha a posição até sentir desconforto, mas não dor. Respire profundamente enquanto segura a bola na altura máxima. Vá gradualmente alongando o braço afetado.

Dica: para efeito de progressão, este exercício pode ser feito na posição sentada em uma cadeira ou em pé.

 

Importante: pessoas com problemas nos joelhos não deverão fazer este exercício.

 

          Alongamento com Bola

 

Equipamento: bola terapêutica.

 

  • Ajoelhe-se, com os quadris sobre os calcanhares, pernas apoiadas contra o chão e com o peso do corpo nos pés.
  • Coloque as mãos em cima da bola, mantendo os cotovelos estendidos e abdominais contraídos.
  • Lentamente role a bola para a frente, com ambas as mãos para o mais longe possível, e mantenha a posição, sentindo o alongamento.
  • Role a bola o mais longe possível para a direita e mantenha a posição.
  • Role a bola o mais longe possível para a esquerda e mantenha a posição.

Pesquisa Relevante em Treino de Força

 

O treino de força pode melhorar a qualidade de vida das mulheres mastectomizadas. Entretanto, as pesquisas em torno deste assunto ainda estão apenas no início.

 

As preocupações iniciais relacionavam-se basicamente com a técnica inadequada de exercícios a qual poderia causar inflamação e trauma. Além disso, o aumento da pressão sanguínea proveniente de um exercício de resistência poderia contribuir para a sobrecarga linfática. Estima-se que a média do fluxo linfático durante o exercício aumenta de 2 a 4 vezes mais do que em descanso.

 

Quase não existem achados relevantes de pesquisas nesta área, porém estudos recentes que investigaram os efeitos de exercícios de carga do tronco superior, sob supervisão, na incidência e sintomas do linfedema, indicaram que não houve alteração na circunferência do braço após o treino de força.

 

Por exemplo, um desses estudos indicou que um programa de resistência feito 2 vezes por semana, durante 6 meses, não aumenta o risco de linfedema e não piora um linfedema já existente. Nesses estudos recentes, as áreas trabalhadas incluíram as costas, ombros, quadris e coxas. Foram usados exercícios sem carga e exercícios com equipamento de resistência variada. A resistência foi sendo aumentada gradualmente e os praticantes usaram luva de compressão (o papel da luva é de aumentar a pressão durante as contrações musculares, melhorando o retorno do fluxo linfático ao coração e evitando o extravasamento dos fluidos linfáticos para os tecidos).

 

É necessário, porém, que as pesquisas continuem para que seja recomendada a melhor frequência e intensidade de força para mulheres em risco. Estudos com grupos maiores e com acompanhamento mais longo, irão com certeza ajudar a esclarecer dúvidas que ainda existam a esse respeito.

Fonte: Naomi Aaronson*, Fitness Journal.

* Naomi Aaronson, é terapeuta ocupacional, terapeuta especialista das alterações das mãos e instrutora de fitness. Naomi desenvolveu um programa específico para mulheres mastectomizadas e também é co-autora de um CD sobre linfedema entitulado “A Recuperação do Câncer de Mama: Em terra e na Água”.